Amanhãs de ontem

Como os artistas podem se juntar aos educadores?

Como as iniciativas pedagógicas e as práticas artísticas podem se tornar aliadas na promoção da partilha sensível e do pensamento crítico?

Como a arte pode produzir dispositivos poderosos contra as ameaças do amanhã?

Como a dança pode traduzir e promover novas plataformas de experiência?

 

Duas estratégias pedagógicas de referência inspiram esta peça para 5 intérpretes. Ambas se fundem a uma base comum: aprender como uma prática para a liberdade. De um lado, o teórico alemão Friedrich Fröbel, inventor do jardim de infância e o seu uso do jogo como ferramenta fundamental para o aprendizado das materialidades em operação no mundo. De outro, o renomado educador e filósofo brasileiro, Paulo Freire, defensor de uma pedagogia crítica em que o aprendiz é considerado co-criador de conhecimento.

 

O jardim de infância foi uma iniciativa educacional surgida na Alemanha em 1837, a qual defendia a educação de crianças pequenas através de brincadeiras criativas, imaginativas e espontâneas. Através de atividades e jogos, o ambiente e a dinâmica das crianças foram introduzidos no processo de aprendizagem. Ao enfatizar o fazer ao invés da comunicação verbal das coisas, Fröbel defendia que a mente cresce através da auto-revelação, possibilitada por brinquedos lúdicos de aprendizado como blocos de construção, bolas com fio, cubo mágico, aos quais ele chamou de Dons (gifts) e por atividades de aprendizagem que ele chamava de Ocupações (occupations), como tecer, desenhar, dobrar papel, entalhar madeira, costurar, amassar, entre outros. Os dons (gifts) levavam a criança a descobrir a materialidade das coisas, seu desdobramento cotidiano, daí aos insights, e as Ocupações à invenção e maestria, portanto ao poder.

 

Para Paulo Freire, a educação serve a homens e mulheres para ganhar acesso crítico ao mundo em que vivem, ao adotar e usar as próprias referências e contextos dos alunos como base do processo de alfabetização. Engajado com a alfabetização de adultos empobrecidos como forma de promover a dignidade humana para pessoas oprimidas, Freire defendia a consciência de ler uma palavra, como ler o mundo. O método revolucionário de Freire tornou-se mundialmente famoso, mas proibido pela ditadura brasileira de 1964-1982. O método é hoje novamente ameaçado por uma intensa campanha de difamação orquestrada pelo recém-eleito governo brasileiro de extrema-direita.

 

Este projeto visa interligar ambos os universos pedagógicos, utilizando a dança como instância de conhecimento, a fim de investigar, executar e explorar as possibilidades inerentes aos princípios educacionais que fundaram ambas as pedagogias. Desejamos com ele pesquisar conhecimentos práticos locais, presentes na vida cotidiana, com o objetivo de elaborar técnicas de movimentos performativos para experimentar o que seria uma tradução entre esses dois domínios e explorar a materialidade em jogo nos Dons e Ocupações de Fröbel.

 

Paulo Freire criticava a ideia de que o ensino é transmissão de conhecimento. Para ele, o professor é aquele que possibilita a criação e a produção de conhecimento. Era para ele uma questão de aprender a ler a realidade para poder reescrevê-la. O mundo tem sido palco de enormes transformações sociais e da redefinição do estar junto e da resiliência da cultura sob a ameaça da precariedade financeira. Estamos interessados neste projeto em aprender com a cidade, sua habitação, seus habitantes, suas práticas, como um modo de conhecer as formas pelas quais a cidade tem sido continuamente reinventada, sua coabitação possibilitada e planos de futuro concretizados.

 

No processo de criação 3 caminhos são pensados serem seguidos: o primeiro, a realização de oficinas abertas para dançarinos e amadores com objetivo de pesquisar e experimentar a materialidade dos jogos de aprendizagem de Fröbel e o estudo dos contextos locais como gerador de conhecimento motor; o segundo, o estudo, a discussão e a experimentação do entrelaçamento teórico e prático das duas práticas pedagógicas, de Fröbel e de Freire, ao lado de sua possível tradução em protocolos de dança; o terceiro, a criação de um futuro espetáculo de grupo, plataforma de partilha sensível e de geração de conhecimento in eventum.

 

Peça para 5 intérpretes // Estreia prevista para o 1o semestre de 2021, Portugal  // Para maiores informações, contactar: gustavociriaco.producao@gmail.com

 

Foto de Filipe Farinha, Festival Verão Azul.

 

Laboratório de criação. Festival Verão Azul, Loulé, Portugal. Outubro 27, 2019.