AMANHÃS DE ONTEM

O que se aprende ao abrir os olhos? Por onde a nossa atenção vaga em curiosidade pelo mundo? Do que se vê, o que se torna conhecimento, vertigem, mistério? 

Dos olhos à boca, da boca à palavra, da palavra ao ouvido e novamente aos olhos, o mundo se processa e através dele todos nós como matérias pensantes, afetivas, sensíveis. 

Mergulhados no presente, lançamos âncoras para o futuro.

Duas estratégias pedagógicas de referência inspiram esta peça para 6 intérpretes. Ambas se fundem a uma base comum: aprender como uma prática para a liberdade. De um lado, o teórico alemão Friedrich Fröbel, inventor do jardim de infância e o seu uso do jogo como ferramenta fundamental para o aprendizado das materialidades em operação no mundo. De outro, o renomado educador e filósofo brasileiro, Paulo Freire, defensor de uma pedagogia crítica em que o aprendiz é considerado co-criador de conhecimento.

O jardim de infância foi uma iniciativa educacional surgida na Alemanha em 1837, a qual defendia a educação de crianças pequenas através de brincadeiras criativas, imaginativas e espontâneas. Através de atividades e jogos, o ambiente e a dinâmica das crianças foram introduzidos no processo de aprendizagem. Ao enfatizar o fazer ao invés da comunicação verbal das coisas, Fröbel defendia que a mente cresce através da auto-revelação, possibilitada por brinquedos lúdicos de aprendizado como blocos de construção, bolas com fio, cubo mágico, aos quais ele chamou de Dons (gifts) e por atividades de aprendizagem que ele chamava de Ocupações (occupations), como tecer, desenhar, dobrar papel, entalhar madeira, costurar, amassar, entre outros. Os dons (gifts) levavam a criança a descobrir a materialidade das coisas, seu desdobramento cotidiano, daí aos insights, e as Ocupações à invenção e maestria, portanto ao poder.

Para Paulo Freire, a educação serve a homens e mulheres para ganhar acesso crítico ao mundo imediato em que vivem,  ao adotar e usar em seu método as próprias referências e contextos dos alunos como base do processo de ensino. Através da alfabetização de adultos empobrecidos, como forma de promover a dignidade humana para pessoas oprimidas, Freire defendia a consciência de ler uma palavra, como ler o mundo. Paulo Freire criticava a ideia de que o ensino é transmissão de conhecimento. Para ele, o professor é aquele que possibilita a criação e a produção de conhecimento. Era para ele uma questão de aprender a ler a realidade para poder reescrevê-la. 

De modo a interligar poeticamente a dança com esses dois universos pedagógicos e examinar princípios que configuram e constroem conhecimento, desejamos com essa idéia tornada projétil, pesquisar conhecimentos práticos presentes na vida cotidiana, que revelam as nossas bases de saber, por exemplo – carregar as compras, colocar uma mochila, varrer o chão, levantar-se de uma cadeira, cumprimentar o outro, atirar uma chave – com o intuito de gerar movimentos performativos e experimentações do que poderia ser uma possível tradução e articulação entre essas duas abordagens, examinando tanto como a percepção da materialidade do mundo através de sua manipulação, como o contexto sócio-cultural de cada um, formam e informam o indivíduo.

Este espetáculo é um díptico. Duas peças, com dois princípios de composição distintos que convivem num mesmo espetáculo.  No meio de uma peça maior, uma outra, mais sucinta, que se anuncia como uma continuação para dentro e ao mesmo tempo para um outro futuro, um outro espetáculo: Uma luz no meio da voragem. A reunião de duas peças numa aposta cénica segue a premissa de imaginar este hoje, futuro do passado tornado presente: Amanhãs de Ontem. Ao confundir tempos, baralhar formatos, o projeto aposta na convivência da vertigem com a lucidez, como modos de se mergulhar no mundo cinético e sensível, tendo como guia em sua composição coreográfica a experimentação das perspectivas de Fröbel e Freire, em sintonia com este momento, tão singular em que estamos, um presente com um futuro tão incerto e imprevisível. 

DEUS – PROMESSA – ESMOLA – CHUVA – BRANCO – PRETO – DISTÂNCIA – TRISTE – ALVOROÇO – MEDO – LAVAR – CORAGEM – CONFINAR – FIM – RESPIRAÇÃO – DESEJO – INFINITUDE – FINITUDE – LIVE – MORTO

 

 

No processo de criação 3 caminhos são pensados serem seguidos: o primeiro, a realização do programa de oficinas abertas – Jardim de Ofícios – para dançarinos e amadores com objetivo de pesquisar e experimentar a materialidade dos jogos de aprendizagem de Fröbel e o estudo dos contextos locais como gerador de conhecimento motor; o segundo, o estudo, a discussão e a experimentação do entrelaçamento teórico e prático das duas práticas pedagógicas, de Fröbel e de Freire, ao lado de sua possível tradução em protocolos de dança; o terceiro, a criação de um espetáculo de grupo, plataforma de partilha sensível e de geração de conhecimento in eventum.

Datas

Residência e laboratório de criação. Materiais Diversos. Cartaxo, Portugal. Fevereiro, 2022.

Laboratório de criação. Festival FIIN. Puerto Montt, Chile. Fevereiro, 2022.

Residência de Criação. Espaço do Tempo. Montermor-o-Novo, Portugal. Dezembro, 2021.

Laboratório de criação. Centro de Dança de Brasília. Brasília, Brasil. Fevereiro 1 e 2, 2020.

Laboratório de criação. Festival Verão Azul, Loulé, Portugal. Outubro 27, 2019.

Concepção, coreografia e direção artística 

Gustavo Ciríaco

Bailarinos e colaboradores convidados

Ana Rita Xavier, Bruno Freire, Joana Levi, Luís Guerra, Sara Zita Correia, Tiago Barbosa

 

 

Desenho de luz 

Tomás Ribas

Cenografia

Sara Vieira Marques

 

Administração 

Missanga Antunes

 

Direção de produção 

Zénite