Cobertos pelo céu é um projeto de pesquisa  centrado nas relações entre paisagem e arte, experiência e discurso poético, com o desejo de desenvolver uma plataforma de colaboração com outros artistas com vistas a uma futura exposição viva.

O projeto é motivado pela curiosidade em como a paisagem e sua habitação cruzam-se na arte, explorando como os discursos artísticos, bem como seus elementos componentes, por vezes estão diretamente ligados a ambientes familiares, próximos e locais.

Em Utopia,  de Thomas Moore, um marinheiro muito experiente em sua descoberta do mundo fala sobre um território distante que ele conheceu, chamado Utopia, onde a civilização aparentemente teria alcançado seu estado mais optimal e justo. Embora essa obra tenha se tornado uma referência para se pensar em ideais de contrato social e formas de convivência, utopia ainda é uma palavra marcada por uma carga de fantasia. Utopia segue pensada como algo imaginário, inexistente, um lugar inacessível, um clichê de paraíso que nunca será real.

Atualizar o conceito de utopia parece-me ligado à capacidade de fantasiar e manipular poeticamente a noção de real. É em nossa imaginação que está a sua força e seu poder. Em Grandes Sertões Vereda, do escritor brasileiro Guimarães Rosa,  a paisagem torna-se uma experiência sensorial através da linguagem inventada pelo autor que advinha o selvagem, o relevo, a forma e a singularidade da paisagem remota do interior do Brasil. De modo semelhante,  Cobertos pelo céu, pretende-se uma jornada sensorial conhecendo artistas e lugares, coletando suas diferentes perspectivas sobre a paisagem e compartilhando seus modos de serem espelhos do mundo. Entre o sentir e o perceber, atrai-me a possibilidade de agir como uma espécie de Hermes, o mensageiro dos deuses (aquela figura ambígua que traduz mundos) nesse diálogo entre artistas e seus habitats de referência. Um Hermes falso, consciente da precariedade de suas traduções, mas pleno em suas apostas. Interessa-me criar lugares de convívio, imaginar espaços e atualizá-los sempre que experienciados e concluídos pelo visitante. Em uma exposição imersiva e instalacional, o público é convidado a ser testemunha e ator. Do mesmo modo como levamos alguém para passear, experimentando o caminho, os obstáculos do solo, esses dioramas cinéticos de fruição buscarão reunir a experiência dos visitantes  com a sensibilia dos artistas convidados em uma mise-en-abîme em movimento.

Atualmente sou pesquisador da 2ª coorte do THIRD, na DAS Graduate School, na Universidade de Artes de Amsterdam. Esta pesquisa artística foi apresentada durante o DAS THIRDcycle Forum em dezembro de 2019.

Concepção e direção  Gustavo Ciríaco

Artistas convidados  Javiera Peón-Veiga, Jonathan Ulliel Saldanha, João Saldanha e Luciana Lara

Artistas convidadas – DAS THIRDcycle Forum Rosie Heinrich e Siegmar Zacharias

Desenho de luz Tomás Ribas

Cenografia Mayra Sérgio

Fotos Mayra Sérgio e Thomas Lenden

Fotos Mayra Sérgio e Thomas Lenden