Discursos traduzem paisagens, culturas espelham panoramas? Somos os ambientes em que vivemos? Até onde a geografia integra-se na arte? Até onde a arte promove espaços de convivência, espaços de atravessamento, espaços inomináveis? Como a coreografia pode ser alinhada à exibição na refabricação de uma experiência?

COBERTOS PELO CÉU é um projeto transdisciplinar centrado na relação entre paisagem e arte com vista à criação de uma coleção de performances e instalações interativas. O projeto acontece impulsionado pela curiosidade em discutir como criação de espaço e experiência de paisagem cruzam-se na assinatura poética de artistas singulares do Reino Unido, Alemanha, Portugal, Brasil, Argentina e Chile nas áreas da música, dança, fotografia, escultura, pintura e performance. 

Em Utopia,  Thomas Moore nos apresenta um marinheiro muito experiente em sua descoberta do mundo, o qual fala sobre um território distante que ele conheceu, chamado Utopia, onde a civilização aparentemente teria alcançado seu estado mais optimal e justo. Embora essa obra tenha se tornado uma referência para se pensar em ideais de contrato social e formas de convivência, utopia ainda é uma palavra marcada por uma carga de fantasia. Utopia segue pensada como algo imaginário, inexistente, um lugar inacessível, um clichê de paraíso que nunca será real.

Atualizar o conceito de utopia parece-me ligado à capacidade de fantasiar e manipular poeticamente a noção de real. É em nossa imaginação que está a sua força e seu poder. Em Grandes Sertões Vereda, do escritor brasileiro Guimarães Rosa,  a paisagem torna-se uma experiência sensorial através da linguagem inventada pelo autor que advinha o selvagem, o relevo, a forma e a singularidade da paisagem remota do interior do Brasil. De modo semelhante, Cobertos pelo céu, pretende-se uma jornada sensorial conhecendo artistas e lugares, colectando suas diferentes perspectivas espaciais e compartilhando seus modos de serem espelhos do mundo.

Entre o sentir e o perceber, atrai-me a possibilidade de agir como uma espécie de Hermes, o mensageiro dos deuses (aquela figura ambígua que traduz mundos) nesse diálogo entre artistas e seus habitats de referência. Um Hermes falso, consciente da precariedade de suas traduções, mas pleno em suas apostas. Interessa-me criar lugares de convívio, imaginar espaços e atualizá-los sempre que experienciados e concluídos pelo visitante. Em uma exposição imersiva, o público é convidado a ser testemunha e ator. Do mesmo modo como levamos alguém para passear, experimentando o caminho, os obstáculos do solo, esses dioramas cinéticos de fruição buscarão reunir a experiência dos visitantes  com a sensibilia dos artistas convidados em uma mise-en-abîme em movimento.

Com o desejo de criar uma plataforma sensível de colaboração com os artistas convidados, tenho visitado as experiências de paisagem dos artistas portugueses Jonathan Uliel Saldanha (Música), Miguel Palma (Artes Visuais), Cláudia Dias (Dança),  João Gabriel Oliveira (Pintura), dos artistas brasileiros Luciana Lara (Dança), João Saldanha (Dança), Michelle Moura (Dança), das argentinas Ana Laura Lozza e Barbara Hang (Dança), da chilena Javiera Péon-Veiga (Dança e Performance), da inglesa Rosie Heinrich (Artes Visuais) e da alemã Siegmar Zacharias (Performance e Teatro) cujos trabalhos revelam uma poética espacial multiforme e transdisciplinar. Ao mergulhar nas obras e em diálogos com artistas europeus e latino-americanos o meu desejo é tornar visível e experiencial o processo dinâmico através do qual são criadas suas arquiteturas efémeras particulares e ajudar a repensar o inominável que elas convocam. Estes artistas, apesar de actuarem de modo tão distinto entre si, em diversos campos da arte, possuem um traço que os reúne: a noção de território, sua transformação poética em direção a um universo próprio.

O projeto alterna entre períodos de (1) condução de conversas/entrevistas online com os artistas convidados onde o conjunto de sua obra é revista à luz de experiências de paisagens que marcaram seus modus operandi. Um registro parcial dessas entrevistas integrará o podcast Um Rádio na Paisagem; (2) períodos de realização de residências presenciais onde são formulados, experimentados os primeiros protótipos, (3) períodos de construção das instalações definitivas, concretizadas por uma equipa artística e técnica e (4) períodos de digressão e exibição das obras da coleção, parcialmente ou em conjunto.

Reacto com esse projeto dois pontos de minha trajetória: o de cientista social e o de artista. Ele é o início de uma resposta em duas potências. É a continuação de um entendimento, mas ao mesmo tempo um passo além. E além está além, está além… Sem medo, pois, nas palavras do marinheiro retratado por Thomas Morus, os mortos insepultos, cobertos pelo céu, serão.

LAWAL_Javiera | Péon-Veiga
Vastidão | Michelle Moura
Paisagem em Linha | Luciana Lara
Poderiapoderá | João Gabriel
Paisagem Boldo | João Saldanha
Roda-viva | Cláudia Dias
Hormiga-Pájaro | Ana Laura Lozza
Otro ser | Barbara Hang
Um sempre onde nunca estive | Jonathan Uliel Saldanha
Cérebro | Miguel Palma

Vídeos

Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas 

Novo Negócio/ZDB

Walk & Talk Arts Festival

ONDE & QUANDO

Cobertos pelo Céu. Festival DDD & Museu de Serralves, Porto. Abril/Maio 2022.

Cobertos pelo céu. Residência de criação + apresentação. NAVE. Santiago, Chile. Dezembro 6-16, 2021.

Cobertos pelo céu. Apresentação. Galeria Avenida da Índia, Festival Temps d´Images. Lisboa, Portugal. Outubro, dias 22 e 23, 2021.

Cobertos pelo céu. Residência de criação e laboratório. Casa de Dança de Almada.  Almada, Portugal. Setembro 20-30, 2021. Apresentação pública do laboratório: dia 30, às 19h.

Cobertos pelo céu. Residência de criação + apresentação. Fundição Progresso. Rio de Janeiro, Brasil. Agosto/ Setembro, 2021. (adiado)

Cobertos pelo céu. Apresentação. Festival Walk & Talk. Ponta Delgada, Açores, Portugal. Julho 16-25, 2021.

Cobertos pelo céu. Residência de criação. Cia Instável e Museu Serralves. Porto, Portugal. Maio 10-14, 2021.

Cobertos pelo céu. Residência de criação. ZDB / Novo Negócio Lisboa e Prodança, Portugal. Maio 3-7, 2021.

Cobertos pelo céu. Residência de criação + apresentação. GNRation. Braga, Portugal. Abril 19-30 (postergado para 2022)

Cobertos pelo céu. Residência de criação. Casa de Cultura de Ílhavo e Fábrica das ideias/23 Milhas. Ílhavo, Portugal. Abril 6-18, 2021.

Cobertos pelo céu. Residência de criação. ZDB / Novo Negócio Lisboa, Portugal. Março 1-20, 2021.

Cobertos pelo céu. Residência de criação. Programa de Residências Artísticas do Pico do Refúgio & Arquipélago – Centro de Artes Contemporáneas. Ribeira Grande, Açores, Portugal. Janeiro 11-17, 2021.

Cobertos pelo céu. Residência de criação. DEVIR/CAPA- Centro de Artes Performativas do Algarve.Faro, Portugal. Novembro, 16-26, 2020.

COBERTOS PELO CÉU

Concepção, direção e coreografia Gustavo Ciríaco

Artistas e coreógrafos convidados  Ana Laura Lozza (Ar), Barbara Hang (Ar), Cláudia Dias (Pt), Luciana Lara (Br), Javiera Peón-Veiga (Cl), Jonathan Ulliel Saldanha (Pt), João Saldanha (Br), João Gabriel Oliveira (Pt), Michelle Moura (Br) e Miguel Palma (Pt)

Artistas convidadas – DAS THIRDcycle Forum Rosie Heinrich (Uk) e Siegmar Zacharias (De)

Performers- Lisboa André Cabral (Pt), Alina Folini (Ar), Bartosz Ostrowski (Pl), Filipe Caldeira (Pt), Gabriela Dória (Br),  Luis Guerra (Pt), Sara Zita Correia (Pt), Tiago Barbosa (Pt) e Vânia Doutel (Pt)

Performers – Rio de Janeiro João Victor Cavalcanti (br), Laura Samy (Br), Leo Nabuco (Br), Milene Codeço (Br) e Priscila Maia (Br)

Performer – Santiago Rodrigo Brown (Cl)

Performers – Brasília Carolina Hofs, Clara Salles, Déborah Alessandro, João Gabriel e Raoni Carricondo (Br)

Desenho de luz Tomás Ribas (Br/Pt)

Projeto arquitetónico e cenografia Gonçalo Lopes (Pt)

Direção Técnica Santiago Tricot (Uy)

Fotografia Gustavo Ciríaco, João Grama, Mariana Lopes, Mayra Sérgio, Sara Pinheiro, Tomás Ribas e Thomas Lenden

Administração Missanga Antunes

Direção de produção Sinara Suzin

Co-produção Fundição Progresso (Rio de Janeiro) e NAVE (Santiago)

Realização Efémera Colecção – Associação Cultural 

Apoio institucional  THIRD –  Dance and Theatre Academy – Amsterdam University of the Arts

Apoios a residência DEVIR – Centro de Artes Performativas do Algarve (Faro/Pt), Pico do refúgio (Rabo de Peixe/Pt), Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas (Ribeira Grande/Pt), 23 Milhas/Fabrica de Ideias (Gafanha de Nazaré/Pt), GNRation (Braga/Pt), Casa de Dança de Almada (Almada/Pt), Cia Instável e Museu Fundação de Serralves (Porto/Pt) e Espaço Novo Negócio/ZDB (Lisboa/Pt)

Apoio República Portuguesa – Cultura | DgARTES – Direção-Geral das Artes

Cobertos pelo Céu – um passeio para o infinito conta com o Apoio à Co-produção de Espetáculo 2020-2021 /IBERESCENA.

 

Fotografias Gustavo Ciríaco, Gui Garrido, João Grama, Mariana Lopes, Mayra Sérgio, Sara Pinheiro, Tomás Ribas e Thomas Lenden